![]() Clube dos contos
O assalto Como de costume, eu fui a última pessoa a sair do prédio onde trabalhava. O final do dia trazia um silêncio bom para aproveitar a ideia e produzir mais. Peguei minha bolsa e caminhei pelo corredor mal iluminado. Desci do elevador já esperando a brincadeira de rotina do Sr Nando, o porteiro do prédio. Mas neste dia eu me excedi demais e já iam dar 22h . Estranhei por não ver aquele Ser simpático sentado à sua mesa na penumbra da portaria. Lá fora, na estrada, já poucos automóveis circulavam. Fiquei curiosa pela sua ausência e decidi esperar.Foi quando ouvi vozes vindo do mezanino e procurei me esconder para não ser vista dali. Por trás da mesa do Sr Nando agucei meus ouvidos para saber o que está havendo. Não identifiquei a voz do porteiro e comecei a me preocupar. Silenciosa, fui para a sala ao lado da portaria onde ficava o quarto em que ele se trocava para trabalhar. Estava vazio e a enorme janela estava aberta. Pela fresta da porta eu podia olhar melhor lá para cima. Eram três ou quatro homens e uma mulher. E estavam entulhando notebooks e outros eletrônicos num carrinho de limpeza da empresa. Saiam e voltavam com mais itens, todos que tinham no prédio. Pensei logo que era um assalto. Eu queria chegar à porta de entrada mas seria vista. Desisti. Ao mesmo tempo que tomei ciência de que eles entraram por aquela janela e , com toda certeza, era por ali que sairiam. Eu me desesperei. Tinha que sair dali o quanto antes. Compreendi que eu conhecia a voz feminina mas não identifico de onde. Abri a porta e segui para uma outra sala abaixo do mezanino onde ficava o visor das câmeras de segurança. Não acendi a luz e pude perceber que o painel estava desligado. Olhei mais uma vez para fora pensando numa forma rápida de escapulir pela imensa porta de vidro. Desanimei. Trancada na sala resolvi acender a luz. Eu estava suando ao mesmo tempo que sentia um frio vindo da minha barriga. Resolvi ligar as câmeras sem pensar que o sensor de luz pudesse chamar a atenção daquelas pessoas. Foi um ato impensado. Um homem desceu para olhar algo na sala com a janela aberta. Eu me escondi atrás de uma mesa. Seus passos eram ruidosos no silêncio do prédio. Ele se certificou de algo e voltou para o andar de cima. Pude olhar as câmaras e logo identifiquei a mulher, era funcionária da empresa. - Que safada- pensei. E me intrigava não vê o Sr Nando que a esta altura eu também achava que fazia parte do bando. Olhei mais atenta e não reconheci nenhum daqueles homens . Eu não podia dar nenhum passo em falso para não ser descoberta por eles, mas fui espiar na porta quando ouvi o barulho da porta de entrada se abrindo. Ela estava aberta este tempo todo. E os alarmes ? Desligados ? Quem estava por trás daquele assalto conhecia bem o prédio e tinha acesso a tudo. E pela fresta da porta vi ninguém mais do que o gerente da firma. Não estava vestido no seu constante terno azul marinho mas sim numa blusa preta e calça jeans . Parecia até um homem mais jovem pela aparência descontraída. Então era isto, ele que criou todas as facilidades para o roubo. Antes de eu fechar completamente a porta ainda pude ouvir ele falar alto dirigindo-se aos assaltantes - Amanhã o seguro paga tudo isto. Voltei para trás da mesa. Ele poderia querer verificar as câmeras. Comecei a sentir uma cãibra na perna e a face ruborizar. Precisava sair dali antes que ele descobrisse que estava sendo filmado. Quando me convenci de que ele subiu até o mezanino e um barulho de carrinho começou a descer as escadas. Sai correndo da sala para a porta ao lado onde ficava o banheiro. Voltei a fechar a porta atrás de mim para só me dar conta da figura ali deitada no chão quando pude respirar de novo. Sr Nando estava jogado no chão com a marca de um tiro na testa. Os olhos ainda abertos e o corpo já gelado. Sim, eram profissionais e queriam deixar a marca do assalto na morte do porteiro. Ah, não era necessário terminar assim. E eu poderia ser a próxima vítima se não me mantivesse quieta. Fiquei pensando em algo para impedir aquilo. Ligar para a polícia é claro. Mas deixei minha bolsa na sala com a janela aberta. Como fui idiota, eles perceberiam que havia alguém mais no prédio. Então meu único impulso foi escorregar para o chão e me aconchegar por trás do corpo do porteiro e ali comecei a chorar baixinho, nunca estive tão perto assim de um morto. O barulho dos carrinhos ficou mais intenso, mais próximos. Não pude identificar o que diziam. Esperei muito que a porta se abrisse e eu levasse também um tiro. Fui me aninhando cada vez mais ao corpo do Sr Nando e acho até que fiz uma prece. Não dei conta mais de mim. Só acordando, despertando de um torpor que tomava conta de mim, com uma mão quente sobre a minha cabeça, alisando meus cabelos. Pude ver o sorriso nos lábios do policial por me encontrar viva - Você está bem ? Sem algum ferimento? - Sim estou bem - voltei a chorar como uma criança assustada. - Foi você que ligou as câmeras? - ele me perguntou curioso. - Sim, eles descobriram ? O que aconteceu? Acho que dormi. Ele percebeu que eu me agarrava ao braço do porteiro. - Você está em choque. Mas foi uma boa menina. Vamos poder pegar todos eles. Assim ele me ajudou a levantar, colocou um cobertor sobre mim, eu estava gelada e me conduziu para a porta de vidro onde tinha muita gente, o trânsito intenso e um sol que brilhava no céu azul.
Ana Pujol
Enviado por Ana Pujol em 07/04/2025
Copyright © 2025. Todos os direitos reservados. Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor. Comentários
|