Ana Lago de Luz

E na beleza das flores... e nas ondas do mar!

Textos


Ana e o Lamento do Violino

 

O despertador estridente cortou o silêncio do amanhecer, fazendo Ana estremecer sob os lençóis suaves . Ela abriu os olhos lentamente, ainda sentindo o eco das cordas do violino nos dedos—um resquício dos exercícios noturnos. O cheiro do café que fervia na cozinha minúscula invadiu o quarto, misturando-se ao leve aroma de madeira encerada do estojo do instrumento, sempre aberto sobre a cama.  

A rua já pulsava com o burburinho da manhã quando ela saiu, o vento frio mordiscando seu rosto enquanto ajustava o casaco surrado. O uniforme da lanchonete—um tecido áspero e manchado de gordura—apertava seus ombros, mas ela o vestia com a mesma disciplina com que afinava suas cordas.  

Dentro do estabelecimento, o ar estava carregado do cheiro de óleo requentado e pão tostado. O som do óleo crepitando na chapa competia com as vozes dos clientes, enquanto suas mãos ágeis—treinadas para deslizar suavemente sobre as cordas—moviam-se rápido entre fatias de pão, queijos derretidos e pedidos gritados pelo dono, Sr. Batista.  

— "Ana! O pedido da mesa 3 tá demorando mais que concerto de igreja!"— berrou ele, a testa brilhante de suor sob o boné manchado de molho.  

— "Tá quase pronto, Seu Batista! Só falta a porção de batata!" — respondeu ela, tentando não deixar a voz tremer com a pressa. Seus dedos, tão precisos no violino, agora lutavam contra o tempo.  

— "Depois dessa, arruma a geladeira. Tá parecendo o túmulo do Elvis lá atrás!"— ele resmungou, afastando-se com passos pesados.  

Ana respirou fundo, sentindo o cheiro salgado do bacon grudar em suas roupas. Enquanto montava o lanche, seu celular vibrou no bolso. Era Marina, sua única amiga da orquestra.  

— "Ana, você vai mesmo tocar no concerto da próxima semana?" — a voz animada de Marina ecoou no ouvido.  

Ana afastou-se um pouco do barulho da cozinha, pressionando o telefone contra o ombro enquanto untava o pão.  

 

— "Vou! É só mais uma semana de turnos dobrados aqui pra pagar a inscrição..." — disse, baixinho.  

 

— "Mas você tá preparada? O maestro é exigente pra caramba!"  

— "Se eu conseguir ensaiar depois do trabalho, sim. Senão... bem, pelo menos vou morrer tentando." — riu, mas o riso soou mais cansado do que brincalhão.  

— "Te espero no ensaio, então. E não chega tarde!"

Ana desligou, sentindo um frio na barriga que não tinha a ver com o ar-condicionado quebrado da lanchonete.  

Quando o expediente terminava, suas pernas doíam e seus pés latejavam, mas o coração acelerava ao pegar o estojo. No parque vazio, sob a luz bruxuleante dos postes, ela finalmente libertava a música presa em seus dedos. O som do violino ecoava entre as árvores, tão doce quanto o cheiro do jasmim noturno, tão vivo quanto o frio que lhe arrepiaba a nuca.  

E, por um momento, Ana não estava mais na lanchonete. Estava voando.

Ana Pujol
Enviado por Ana Pujol em 01/04/2025
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