Ana Lago de Luz

E na beleza das flores... e nas ondas do mar!

Textos


 

 

A manhã estava cinzenta, como tantas outras naquele cemitério de túmulos sofisticados, onde anjos de pedra guardavam segredos eternos e epitáfios dourados sussurravam histórias de vidas opulentas. José Freitas Nunes, um homem cuja riqueza era conhecida até mesmo entre os mortos, caminhava com passos lentos entre os mausoléus, um buquê de lírios brancos apertado contra o peito.  

Era seu ritual mensal: visitar os pais, cujo jazigo era uma obra-prima de mármore italiano, adornado com esculturas de querubins melancólicos. Ainda que o tempo tivesse suavizado a dor, a culpa permanecia—ele, tão ocupado em construir seu império, mal lhes dera atenção em vida. Agora, só restavam as flores e o silêncio.  

Ao se aproximar do túmulo, porém, algo o fez hesitar. Um jovem estava ali, de pé diante da lápide, os dedos traçando as letras gravadas no mármore como se lessem uma carta íntima. Vestia um sobretudo negro, desgastado nas bordas, e seu rosto pálido contrastava com os olhos profundos, quase translúcidos.  

— Posso ajudá-lo? — José perguntou, mais por surpresa do que por cortesia.  

O estranho virou-se devagar, como se já soubesse que seria interrompido.  

— Eles eram bons, não eram? — murmurou, ignorando a pergunta. A voz era suave, mas havia algo nela que fez José estremecer.  

— Como o senhor sabe?  

O jovem sorriu, um gesto fugaz.  

— Os nomes deles estão aqui. Mas não são só palavras na pedra que contam uma história. — Seus olhos pousaram nos lírios. — Você ainda os ama. Isso é raro.  

José sentiu um frio na nuca.  

— Quem é o senhor?  

O estranho inclinou a cabeça, como se considerasse quanta verdade poderia revelar.  

— Alguém que também visita os que partiram. — Ele estendeu a mão, e por um instante, José jurou ver, entre seus dedos, uma flor murcha, negra como carvão. — Talvez um dia eu visite o seu túmulo também.  

Antes que José pudesse responder, o jovem afastou-se, desaparecendo entre as sombras dos túmulos como fumaça.  

No ar, restou apenas o cheiro de terra molhada e o eco de uma pergunta que José não ousava formular.  

Quando ele se virou para colocar os lírios no jazigo, notou algo estranho: as flores que trouxera no mês passado estavam intactas, como se recém-colhidas.  

E, no mármore, além dos nomes de seus pais, havia uma nova inscrição, fina como um arranhão de unha:  

"Até breve."

 

 

Ana Pujol
Enviado por Ana Pujol em 01/04/2025


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