![]() A Última Caminhada
A noite estava mais escura do que o habitual na Rua dos Ventos . As luzes dos postes, poucas e fracas, pareciam ceder à escuridão, criando longas sombras que se estendiam como dedos famintos. Manoel e Rodrigo caminhavam lado a lado, os passos ecoando no silêncio opressivo. — Eu te disse que era melhor voltar mais cedo — resmungou Manoel, encolhendo os ombros dentro do casaco. Seus olhos saltavam de sombra em sombra, como se esperasse que algo se movesse a qualquer instante. Rodrigo, por outro lado, parecia completamente à vontade, as mãos nos bolsos e um sorriso despreocupado no rosto. — Relaxa, Manoel. O que pode acontecer? É só uma rua como qualquer outra. — Uma rua escura, sem movimento e com uma fama sinistra — retrucou Manoel, baixando a voz. — Você não ouviu as histórias? Pessoas desaparecem aqui. Rodrigo riu, o som ecoando de forma quase obscena na quietude. — Histórias pra assustar criança. Você sempre foi muito medroso. — Não é medo, é precaução! — Manoel olhou para trás mais uma vez, sentindo um frio na nuca. Foi então que um barulho veio do beco à esquerda — um arrastar de pés, lento e deliberado. Manoel congelou. — Ouviu isso? Rodrigo ergueu uma sobrancelha, olhando na direção do som. — Provavelmente um gato. Ou o vento. — O vento não arrasta os pés! — Manoel agarrou o braço de Rodrigo, a voz saindo em um sussurro tenso. Rodrigo suspirou, impaciente. — Se você tá com tanto medo, vamos dar a volta por outra rua. Mas eu te aviso, vai ser mais longo. Manoel hesitou. Olhou para frente, onde a escuridão parecia se aprofundar, e depois para o beco, onde o som havia vindo. — Tá bem. Vamos pelo outro lado. Rodrigo revirou os olhos, mas concordou. Mal deram dois passos quando uma figura alta e esguia emergiu da sombra, bloqueando o caminho à frente. Os dois pararam. Manoel sentiu o coração bater tão forte que doía. Rodrigo, por incrível que parecesse, ainda parecia cético. — Bom, agora sim ficou interessante — murmurou Rodrigo, como se estivesse diante de um desafio. A figura deu um passo à frente, e a pouca luz revelou um rosto pálido, os olhos escuros e vazios. Manoel não esperou. Virou-se e correu, deixando Rodrigo para trás. — Manoel! — gritou Rodrigo, mas a voz logo se transformou em um grito abafado. Quando Manoel olhou para trás, já longe, a rua estava vazia. Rodrigo tinha desaparecido. E, no silêncio que se seguiu, apenas um sussurro veio da escuridão: "Você sempre foi muito medroso..." Mas a voz não era mais de Rodrigo. Ana Pujol
Enviado por Ana Pujol em 31/03/2025
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