Ana Lago de Luz

E na beleza das flores... e nas ondas do mar!

Textos


O Café sem Açúcar

 

O vento da tarde agitava as folhas secas no calçamento quando Evaldo dobrou a esquina e avistou o letreiro desbotado do Café Martinelli. Aquele lugar antigo, com seus azulejos rachados e o cheiro de torrada e de café sempre presente, era o único ponto da cidade onde o tempo parecia hesitar em passar. Ele ajustou a gola do casaco, não por causa do frio, mas para ganhar alguns segundos antes de entrar. Sabia que Mário já estaria lá.  

E não errou.  

Sentado no canto oposto ao de sempre — o canto de Silvia —, Mário lia um jornal velho, os dedos manchados de tinta. Levantou os olhos quando a porta rangeu, e um sorriso breve, quase imperceptível, surgiu em seu rosto. Não era um cumprimento, era um reconhecimento: "Ah, você também veio." 

— Chegou cedo — disse Evaldo, puxando a cadeira.  

— Você chegou tarde — respondeu Mário, dobrando o jornal com cuidado excessivo.  

Silvia apareceu vinte minutos depois, como sempre fazia às quartas-feiras. Vestida num vestido azul-claro que parecia feito do céu daquela manhã, e os cabelos soltos, ainda úmidos do banho. Cheirava a jasmim e algo mais — algo que nenhum dos dois conseguia nomear, mas que os perseguia nos sonhos.  

— Vocês de novo aqui? — ela riu, deixando cair a bolsa no banco vazio entre eles.  

Evaldo sentiu o coração acelerar, como se tivesse subido escadas demais. Mário apenas inclinou a cabeça, mas seus dedos tamborilaram levemente na mesa, um código morse de nervosismo.  

O garçom, um homem baixo e calvo que já conhecia os três há anos, aproximou-se sem pressa.  

— O de sempre, Silvia?  

— Sem açúcar, por favor.  

Evaldo olhou para Mário, que já olhava para ele. Ambos sabiam que aquele "por favor" era novo. Silvia nunca pedia as coisas com tanta delicadeza. Algo havia mudado.  

Enquanto ela falava de um projeto novo no trabalho — algo sobre traduzir poemas russos —, Evaldo observou como a luz do fim de tarde desenhava sombras douradas em seu pescoço. Mário, por sua vez, notou o anel de prata em sua mão direita, um presente que nenhum dos dois dera.  

— Então vocês não vêm ao recital amanhã? — Silvia perguntou, interrompendo o silêncio que se instalara.  

— Que recital? — Evaldo franziu a testa.  

— O do Igor, meu amigo violoncelista. Eu comentei na semana passada.  

Mário bebeu um gole de café, agora frio.  

— Deve ter escapado.  

Silvia olhou de um para o outro, e pela primeira vez naquela tarde, seu sorriso esmoreceu. Era como se ela soubesse — como se sempre soubesse — que aquelas presenças constantes não eram coincidências, mas vigílias.  

— Preciso ir — disse de repente, levantando-se. — Tenho coisas a resolver.  

Evaldo quis perguntar :que coisas? Quis oferecer companhia, mas engoliu as palavras junto com o resto do café amargo. Mário apenas assentiu, os olhos fixos no anel que ela torcia agora no dedo.  

Quando a porta se fechou atrás dela, os dois homens ficaram imóveis, como se mover-se fosse admitir que algo terminara. O garçom trouxe a conta sem ser chamado, um hábito antigo.  

— Eu pago hoje — Evaldo estendeu a mão.  

Mário segurou seu pulso, leve, mas firme.  

— Na próxima.  

Não houve discussão. Não houve "ela prefere você?" ou "desista". Apenas aquele silêncio denso, cheio de todas as palavras que nunca disseram. Quando finalmente saíram, a noite já caía sobre a cidade, e o café começava a esvaziar.  

Na mesa, três xícaras: uma quase cheia, duas vazias.  

E em algum lugar entre elas, um resto de doce que não existia.  

 

 

Ana Pujol
Enviado por Ana Pujol em 30/03/2025
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