Ana Lago de Luz

E na beleza das flores... e nas ondas do mar!

Textos


 A Última Dose

 

O cheiro de antisséptico queima minhas narinas, mas já nem noto. Há semanas vivo entre estas paredes brancas do hospital, onde o silêncio é interrompido apenas pelo *bip* monótono dos monitores. Minha mão treme ao ajustar o soro na veia de Ana. Sete anos, olhos cor de mel, pele pálida como papel. Ela dorme agora, encurvada sob o cobertor fino, a respiração um fio prestes a se romper.

— Carlos - interrompe meu silêncio .

A voz de Raúl me atravessa como uma faca. Ele está na porta, impecável no terno cinza, o relógio de ouro cintilando sob a luz fluorescente. Sorri, mas não chega aos meus olhos: Você sabe o que eu quero.Ele diz . 

A proposta dele ecoa na minha cabeça desde ontem: "Um carregamento de morfina desaparecerá do depósito. Você assina o relatório como diretor chefe, e eu entrego o Remicade para a Ana. Simples assim."  Simples. A palavra soava como um veneno. O Remicade é a única esperança contra a doença rara que está corroendo as articulações dela. Sem ele, os médicos dão seis meses. Talvez menos.  

Mas Raúl não é um benfeitor. A morfina sumiria para as ruas, para os vícios de adolescentes e pais desesperados. Quantos e quantas  "Anas" morreriam de overdose, sufocadas em becos, enquanto a minha respira em um leito esterilizado?  

Minha mão encontra o pingente de prata no bolso — um coração com a inicial da Leonor , minha esposa. Ela morreu num acidente de carro, há quatro anos. "Não deixe a dor te cegar"  ela diria. Mas Leonor nunca viu Ana gemer de dor, nunca segurou a mão dela enquanto ela perguntava: "Pai, quando eu vou brincar de novo?"

— Pense rápido: Raúl sussurra, aproximando-se. O estoque do Remicade acaba amanhã. E o hospital não vai priorizar uma criança mesmo sendo filha do diretor,  não tem como .  

Sinto o suor escorrer pelas costas. Lembro da noite em que Ana ainda andava. Corríamos no parque, e ela ria ao ser levantada no ar, seus dedinhos grudados nos meus. Agora, esses mesmos dedos estão inchados, retorcidos. Eu faria qualquer coisa.Qualquer coisa? Até condenar outros pais a chorarem seus filhos?  

Raúl entrega-me a caneta. Dou um passo atrás, mas ela pesa como um tijolo.  

— Você não é santo, Carlos, ele ri. Lembra da insulina que você desviou para o velho Silva no ano passado? Isso aqui é igual. Só que… maior.  

O velho Silva. Um diabético sem-teto que eu ajudava às escondidas. Na época, justifiquei: "É só uma ampola." Mas Raúl vira a ferida da minha alma. Ele sabe que minha moral é flexível quando o desespero bate.  

Ana murmura em sono agitado: "Não quero mais injeções, pai…"  

A caneta rola entre meus dedos. Se eu assinar, serei cúmplice. Mas se não o fizer, como explicarei a ela nos últimos dias? "Perdoe-me, eu tentei ser nobre"? Leonor me chamaria de covarde. Ou de herói? Não sei mais.  

— Decida: pressiona Raúl.  

Olho para Ana. Uma lágrima escorre de seu olho fechado. Imagino-a enterrada ao lado da mãe, e meu peito arde. Mas também vejo rostos sem nome, corpos em vielas, famílias destruídas pela droga que eu libertei.  

A caneta toca o papel.  

— Bom garoto:  Raúl suspira, aliviado.  

Minha mão para. O relatório está preenchido, exceto pela assinatura: Carlos Menezes. Cinco sílabas que podem salvar ou assassinar.  

Ergo os olhos.  

— E se eu disser não?  

Raúl congela. Seu sorriso desmorona.  

— Então… — ele puxa um frasco do bolso, o Remicade brilhando como diamante líquido — isso aqui vai pelo ralo. E você assistirá. 

Segura o frasco sobre a pia, o dedo prestes a abrir a tampa.  

O coração acelera. Posso saltar, arrancá-lo de suas mãos? Mas ele é mais forte. Mais frio.  

Ana geme.  

- Qualquer escolha. diz Raul.

Aperto o pingente, no bolso,  até a pele doer.  

— Então? - Raul tem as têmporas suadas  

Abro a boca para responder.  

 

 

Ana Pujol
Enviado por Ana Pujol em 24/02/2025
Alterado em 24/02/2025
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