![]() A Criança Esquecida
Ana era uma mulher de quarenta anos, mas carregava uma alma cansada, como se tivesse vivido séculos. Ela trabalhava em um escritório cinzento, cercada por pilhas de papéis e telas que nunca pareciam desligar. Sua vida era uma rotina interminável de responsabilidades, expectativas e silêncios. Ela havia esquecido como sorrir de verdade, como sonhar, como sentir a leveza da vida. Ana tinha medos profundos: medo de não ser boa o suficiente, medo de falhar, medo de nunca encontrar seu lugar no mundo. E, acima de tudo, medo de que sua criança interior, aquela menina cheia de luz e imaginação, tivesse desaparecido para sempre. Uma noite, enquanto caminhava para casa sob um céu estrelado, Ana parou em um parque vazio. O cansaço a derrubou em um banco, e ela olhou para a lua, cheia e brilhante. Era uma lua que parecia sorrir, como se soubesse algo que ela não sabia. Ana suspirou e sussurrou para si mesma: "Onde foi parar aquela menina que acreditava em magia?" Foi então que algo extraordinário aconteceu. A lua começou a brilhar mais intensamente, e um feixe de luz prateada desceu até o chão, formando uma figura delicada e radiante. Era uma Fada Madrinha, mas não como as dos contos de fadas que Ana lia quando criança. Esta fada tinha asas que pareciam feitas de luz lunar, e seu rosto era uma mistura de sabedoria e ternura. "Ana," disse a Fada Madrinha, com uma voz que ecoava como uma canção suave, "você chamou por ela, e ela veio." "Chamei por quem?" perguntou Ana, confusa. "Por sua criança interior," respondeu a fada, estendendo a mão. "Ela nunca foi embora, apenas se escondeu. Venha, vamos encontrá-la." Antes que Ana pudesse protestar, a Fada Madrinha tocou sua mão, e de repente, elas estavam voando. O parque, a cidade, o mundo inteiro desapareceram, e elas entraram em um reino de sonhos. Era um lugar onde o céu era rosa e o chão era coberto por grama que brilhava como estrelas. No centro desse mundo, sentada em uma rede balançando suavemente, estava uma menininha. Ela tinha cabelos cacheados e um vestido cheio de cores, e seus olhos brilhavam com uma luz que Ana reconheceu imediatamente. "É... eu?" Ana perguntou, hesitante. A menina pulou da rede e correu até ela. "Claro que é você! Eu sou você, Ana. A parte de você que nunca deixou de acreditar em magia, em aventuras, em possibilidades." Ana sentiu um nó na garganta. "Eu pensei que você tinha ido embora. Eu pensei que eu te perdi." A menina sorriu e pegou sua mão. "Eu nunca fui embora. Você só parou de me ouvir. Mas eu sempre estive aqui, esperando." A Fada Madrinha se aproximou das duas. "Ana, sua criança interior é a chave para o recomeço que você tanto deseja. Ela guarda seus sonhos, sua coragem, sua capacidade de ver o mundo com olhos cheios de maravilha. Se você quiser se encontrar novamente, precisa abraçá-la." Ana olhou para a menina, que agora segurava uma pequena lanterna que brilhava com a luz da lua. "O que eu preciso fazer?" "Você precisa perdoar a si mesma," disse a menina. "Perdoar-se por todos os erros, por todas as vezes que você se esqueceu de si mesma. E precisa prometer que nunca mais vai me abandonar." Ana sentiu lágrimas escorrendo pelo seu rosto. Ela se ajoelhou e abraçou a menina, apertando-a com força. "Eu prometo," sussurrou. "Eu prometo nunca mais te esquecer." Quando ela abriu os olhos, estava de volta no parque, sentada no banco sob a luz da lua. A Fada Madrinha havia desaparecido, mas Ana sabia que ela ainda estava lá, em algum lugar entre os sonhos e a realidade. E, dentro dela, a menina com o vestido colorido e a lanterna brilhante agora tinha um lugar seguro para morar. Ana levantou-se, sentindo uma leveza que há muito não experimentava. Ela olhou para a lua e sorriu, sabendo que, a partir daquele momento, nunca mais estaria sozinha. Ela tinha sua criança interior de volta, e com ela, toda a magia, a coragem e a esperança que precisava para recomeçar.
Ana Pujol
Enviado por Ana Pujol em 16/02/2025
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