Ana Lago de Luz

E na beleza das flores... e nas ondas do mar!

Textos


Num tom negro 

 

O dia amanheceu envolto em um manto de negro profundo, como se o céu tivesse decidido chorar a partida do meu querido Aristides. A luz do sol mal conseguia romper a densa camada de nuvens escuras que pairava sobre a cidade, refletindo a tristeza que se instalara em nossos corações. Era o dia do sepultamento, e tudo ao nosso redor parecia absorver a dor da perda.

Vesti-me com um vestido preto, longo e discreto, feito sob medida para essas horas sombrias. O tecido suave acariciava minha pele, mas não conseguia aliviar o peso que sentia no peito. Olhando-me no espelho, percebi como os detalhes em renda negra pareciam se misturar ao luto que me envolvia. Meu cabelo estava preso em um coque simples, adornado apenas por uma tiara escura que Aristides sempre dizia que me fazia parecer uma rainha. Uma rainha sem reino, agora.

A casa estava impregnada de um silêncio pesado, quebrado apenas pelo som distante de passos e sussurros dos convidados que chegavam para prestar suas últimas homenagens. As paredes, pintadas de um tom cinza, pareciam se curvar sob o peso da tristeza. As flores brancas que adornavam a sala eram um contraste gritante com o negro predominante, mas mesmo elas pareciam tristes, quase como se estivessem se despedindo junto comigo.

Enquanto esperava na sala, olhei pela janela e vi o céu tão escuro quanto minha alma. Era como se o universo estivesse em luto também. Lembrei-me das tardes ensolaradas que passamos juntos, rindo e sonhando sobre o futuro. Agora, tudo estava envolto em sombras.

Os convidados começaram a chegar, todos vestidos de negro — homens com seus ternos escuros e mulheres com vestidos sóbrios. Cada rosto carregava uma expressão de pesar e respeito. Quando meu filho chegou, seu olhar encontrou o meu e eu percebi que ele também estava vestido de negro — uma camisa preta e calças escuras que pareciam pesar mais do que o usual. O luto nos uniu naquele momento; éramos dois corações quebrados tentando encontrar consolo um no outro.

— Mãe — ele disse com a voz embargada — ele sempre foi tão forte... 

— Sim — respondi lentamente — mas agora precisamos ser fortes por ele.

O carro funerário chegou e, ao ver o caixão  sendo retirado do veículo, meu coração afundou ainda mais. O brilho do metal negro refletia as lágrimas que não consegui conter. O caixão parecia um pequeno barco à deriva em um mar de dor; eu queria gritar, mas as palavras estavam presas na garganta.

Durante a cerimônia, cada discurso era envolto em uma névoa de tristeza. Amigos e familiares falavam sobre os momentos felizes com Aristides; as histórias eram contadas com vozes trêmulas e lágrimas nos olhos. O negro  prdominante se tornava mais do que apenas uma cor; era um símbolo da falta que ele deixava em nossas vidas.

Quando finalmente chegou a hora de nos despedirmos, todos formamos uma fila diante do caixão. Cada pessoa depositou flores brancas sobre ele — lírios e rosas — enquanto eu permanecia ali, paralisada pelo luto.

— Adeus, meu amor — murmurei para mim mesma enquanto olhava para o caixão descendo na terra escura. O céu parecia chorar junto comigo; gotas grossas começaram a cair como lágrimas pesadas.

Naquela tarde sombria, enquanto todos se afastavam com os corações pesados e os rostos marcados pelo luto, percebi que o negro não era apenas sinônimo de dor; era também um lembrete da força dos laços familiares que nos uniam. Assim como as nuvens escuras dançam no céu antes da tempestade passar, eu sabia que eventualmente encontraríamos uma maneira de seguir em frente — mesmo que isso significasse aprender a viver com a ausência dele.

E assim deixei aquele dia marcado pelo luto profundo não só como um adeus ao  Aristides, mas também como um novo começo para mim e minha família — mesmo sob o céu nublado da nossa dor.

Ana Pujol
Enviado por Ana Pujol em 01/02/2025
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