![]() Era uma manhã nublada quando o conheci. Eu estava sentado à beira do lago, a cana de pescar apoiada contra a madeira gasta do meu barco. O céu refletia uma paleta de cinzas, e a superfície da água parecia um espelho quebrado. Foi então que ele apareceu — um homem de aparência etérea, como se tivesse sido esculpido das próprias horas. Vestia um manto feito de sombras e luz, e seus olhos eram como dois relógios antigos, marcando os minutos em um compasso que só ele compreendia.
“Você me chamou?”, perguntou ele, sua voz ecoando como o tilintar de sinos distantes.
“Eu? Não, eu só... estou pescando”, respondi, embora soubesse que ali havia algo mais profundo que simples distração.
“Pescar é uma forma de buscar o que escapa entre os dedos do tempo”, ele disse, sentando-se na beirada do barco com uma leveza que desafiava a gravidade. “O que você espera encontrar nas águas?”
“Talvez o silêncio”, murmurei. “Ou talvez apenas um momento de paz em meio ao caos da vida.”
Ele sorriu, um sorriso que parecia conter séculos de sabedoria. “O silêncio é uma ilusão criada pela pressa. O tempo não para para dar espaço ao descanso; ele flui incessantemente, moldando tudo ao seu redor.”
“Mas e as lembranças?” perguntei, intrigado. “Elas não são o que nos ancoram ao passado? Não podemos nos perder nelas?”
“O passado é um rio que corre para trás”, respondeu ele, olhando para a superfície da água com uma intensidade quase hipnótica. “Cada lembrança é uma gota desse rio. Você pode mergulhar nelas, mas nunca poderá voltar àquela correnteza original.”
Senti um peso nas palavras dele, como se cada sílaba carregasse o peso das vidas passadas. “Então devemos nos apegar ao presente? A cada momento fugaz?”
“Exatamente”, disse ele, agora olhando diretamente em meus olhos. “O presente é a única verdade que temos. É na sua fragilidade que reside sua beleza. Cada instante é único e irrepetível.”
Ponderando suas palavras, lancei minha linha novamente na água. O movimento era quase hipnótico, como se eu estivesse tentando capturar não apenas peixes, mas também o próprio tempo. “E quanto ao futuro? O que podemos fazer com ele?”
“O futuro é o mistério mais profundo”, respondeu ele com um ar contemplativo. “É como uma rede lançada no mar; você pode projetá-la para onde quiser, mas nunca saberá exatamente o que virá até puxá-la de volta. A única certeza é que estará sempre mudando.”
“Então, viver é aceitar essa incerteza?” perguntei.
“Exato”, disse ele com um aceno grave. “Viver é dançar com a incerteza e aprender a apreciar a música do agora.”
Fiquei em silêncio por um momento, absorvendo suas palavras enquanto observava as ondas pequenas se formando à beira do barco. O pescador em mim queria pegar algo palpável, mas o filósofo dentro de mim sabia que havia algo mais valioso do que qualquer peixe.
“O tempo pode ser cruel”, confessei finalmente. “Ele leva pessoas amadas e momentos preciosos.”
“Sim”, disse ele suavemente. “Mas também traz novos começos e oportunidades inesperadas. É uma troca constante; cada fim é um novo começo disfarçado.”
Olhei para ele, admirando sua presença quase mítica. “E você? O que você ganha com tudo isso?”
Ele sorriu novamente, seu manto flutuando levemente como se fosse feito de brisa e luz. “Eu sou a essência do movimento; ganho cada instante vivido por aqueles que entendem minha dança.”
Naquele momento compreendi: o Tempo não era apenas um conceito abstrato ou uma mera sequência de minutos; era um companheiro constante na jornada da vida — alguém com quem eu poderia conversar sobre as profundezas da existência.
Enquanto a manhã se transformava em tarde e as nuvens começavam a se dissipar lentamente, percebi que minha linha permanecia vazia — mas meu coração estava cheio de novas ideias e reflexões sobre o tempo e sua dança interminável com a vida.
E assim nos sentamos ali, juntos — eu, o pescador; ele, o Tempo — trocando palavras enquanto as águas continuavam a fluir sob nós. Ana Pujol
Enviado por Ana Pujol em 09/01/2025
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