![]() Desejos reprimidos
Mauro fechou o laptop e vestiu o paletó. Avisou a secretária que iria almoçar mas só voltaria em três horas. Entrou no seu volvo elétrico na garagem do prédio onde funcionava a empresa com seu sócio Amaury e partiu. Entrou no estacionamento do shopping e deixou o carro numa vaga distante. O sol a pino escaldava o asfalto e não dava trégua nem debaixo de uma árvore onde ficou esperando. Mas logo viu chegar a moto de Samuel parando bem próximo a ele. Subiu na garupa sem cumprimentá-lo, apenas dando um tapinha em seu ombro. - Qual foi sua desculpa de hoje ? - Não se lembra? Estou fazendo um tratamento dentário - respondeu com um sorriso quase infantil. Ele afagou seus cabelos cacheados ante de por o capacete e foram a um motel. Voltou ao trabalho quase as quatro da tarde e manteve seu ritmo sóbrio de trabalho. A noite em casa, chegou antes do jantar, comprimentou todos e ficou em frente a TV fingindo prestar atenção no noticiário mas sua mente revivia as horas de amor com Samuel. Quando a família se reuniu para jantar estava um alvoroço. Sua esposa Cintia se preocupava em servir todos, os dois filhos mais velhos falavam animados sobre a faculdade e a caçula insistia em brincar com a tela do Tablet enquanto comia. Mauro estava alheio a tudo mesmo parecendo dar atenção aos filhos e ser cordial com a esposa. Lavaram a louça juntos sem trocar uma palavra. Os filhos mais velhos Amanda e Juarez tinha 21 e 23 anos e marcavam uma fase de vida feliz da juventude do casal. Camila, o temporão com apenas 6 anos era fruto de um adultério de Cintia pois não havia mais relacionamento sexual entre eles. Nunca falaram nisto. Mauro acolheu a filha como sua sem saber a verdade, Cintia estivera muito apaixonada por um homem que a abandonara. Mauro parecia ter mais amor pela criança que a própria mãe. Cintia vivia um mundo a parte, de futilidades regado a muito álcool. As vezes suspeitava que o marido tivesse casos fora de casa, mas isto não importava. O silêncio entre eles era devastador. Mauro nunca soubera de sua dor. O quanto sofrera por um homem amado. As noites insones querendo gritar a falta que ele fazia. Estava desmoronada e com um filho no ventre. Passou a odiar o mundo. Mas manteve as aparências. No domingo seria aniversário de Amanda e dariam uma grande festa no enorme quintal da casa, com direito a piscina liberada para os muitos jovens da faculdade. Cintia organizava tudo e não se importou que no sábado Mauro passasse o dia todo fora com a desculpa de que iria trabalhar. Na verdade, Mauro passou o dia inteiro com Samuel. A paixão entre os dois só aumentava e não queriam perder nenhum tempo juntos. Ficaram a manhã toda na piscina da suíte de um motel. Não havia mundo lá fora. - Vou comprar um apartamento para você. Para termos um lugar só nosso. Samuel assumiu a homossexualidade muito cedo e foi acolhido pelos pais e amigos. E ele tinha plena consciência que para Mauro isto era quase impossível. Trabalho, amigos e família fazia muita pressão. - Vamos pensar nisto depois - disse mordendo seus lábios e afundando na água. Almoçaram e dormiram, um sobre o corpo do outro em exaustão. No domingo a festa de Amanda começou cedo: presentes, risadas e muitas moças de biquíni. Parecia tudo perfeito. Samuel tambem foi . Era convidado da aniversariante pois estudavam juntos. Mas não trocou nem um olhar com Mauro ficando junto aos amigos mais velho. Só por um raro instante, passaram um pelo outro na hora de cantar parabéns para Amanda, as mãos se tocaram , eletrizantes. Foi um dia ensolarado de muito divertimento. Cintia excedeu na bebida mas passou desapercebida levada pelo filho mais velho para um banho e dormir em seu quarto. Lá pelas dez da noites, todos já tinham ido embora, só Amanda assistia a uma série com duas amigas que dormiriam em sua casa, quando o celular tocou. Do outro lado da linha era um amigo da faculdade. - O que? Disse Amanda sem entender. - Mas não pode ser ? Isto é uma tragédia! Dos seus olhos já brotavam lágrimas enquanto escutava detalhes do outro lado da linha. Suas amigas apreensivas estavam curiosas e assustadas. Quando Amanda desligou o celular cobriu o rosto com as mãos. - Foi Samuel. Um carro bateu em sua moto. Ele está morto. O tom de sua voz fez acordar os pais. Cintia ainda sonolenta não ligava a pessoa ao fato. Mauro porém, abraçou-se.a uma barra inexistente na parede e congelou por dentro . - Como aconteceu, filha? - Não sei dizer, pai, o cara do carro estava bêbado. Pegou ele em cheio. Ele foi jogado da moto. Morreu no local. A cabeça de Mauro parecia explodir mas não derramou uma lágrima.Mantia-se forte por fora, desmoronado por dentro. Amanda recebeu mais algumas ligações. Tudo ainda era muito precipitado. Não havia muito o que fazer. Só esperar. -Era aquele rapaz que é um pouco mais velho que vocês- perguntou Cintia sem muito interesse. - Sim mãe. Volte a dormir. Mauro escorregou no degrau da escada devastado. Acabara de perder o amor da sua vida e nao emitia nenhum som mesmo gritando de pavor por dentro. Cintia não podia mensurar a dor de Mauro. Não imaginava seus sentimentos tão próximos ao que sentirá a uns anos atrás. A emoção não lhe tocou. - Amanda vamos ao velório mas acompanhar o corpo nem pensar. Está muito calor. Capelas tem ar refrigerado. - e voltou para o quarto. Mauro a odiou com toda força. Queria sair naquele momento. Queria ver o corpo. Ter certeza do acontecido. Beijar os lábios de Samuel ainda quentes. - Papai o senhor está bem? Está tão pálido! Estou sofrendo, não era muito chegada, mas gostava muito de Samuel. O senhor vai comigo amanhã? Mauro só ouviu o final da frase, ele queria chorar, soltar um uivo de dor mas só respondeu. - Claro, minha filha. O tempo se arrastou até a tarde do dia seguinte. Mauro cravava as unhas no braço até sangrar. Sentia-se abandonado pela vida, pelas pessoas. Seu desejo reprimido chegava até a boca como um vômito quente que jorrava para dentro. Mas não percebia a transformação que tomava conta de sua mente. Ao lado de Cintia ouvi o padre rezar e um familiar comovido falar sobre a juventude. Não pode ser conter. Levantou-se meio que anestesiado. Ainda sentiu as mãos de Amanda segurar seu braço. Foi tudo que sentiu. Aproximou-se do caixão e olhou uma única vez para o semblante livido mesmo mortuário de Samuel. Gostaria de ter uma mão que segurasse a sua. Cintia mexia distraidamente na bolsa quando ele começou a falar - E na fala de Neruda eu me despeço e disse com a voz embargada: " te amo ...sin reflexionar, inconscientemente,irresponsavelmentente, involuntariamente, por instinto, por impulso, irracionalmente." Cintia levantou os olhos e redescobriu o marido. Todos na capela ficaram em silêncio. Ana Pujol
Enviado por Ana Pujol em 04/01/2025
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