Ana Lago de Luz

E na beleza das flores... e nas ondas do mar!

Textos


O último pedido

 

Nathan e Rodrigo ainda discutiam sobre futebol com os copos gelados de cerveja suados nas mãos molhadas. Nathan acendeu um cigarro por instinto e foi repreendido pelo dono da lanchonete. " Aqui dentro não " E ele apagou o cigarro na mesa deixando o cheiro de fumaça no ar. 

A lanchonete de Sebastião, um pequeno refúgio em meio à agitação da cidade, era um lugar onde os aromas e sabores pairavam  no ar. O cheiro de pão fresco saindo do forno se misturava ao aroma forte do café recém-passado, criando uma atmosfera acolhedora que atraía clientes de todas as idades. As paredes estavam adornadas com fotografias antigas da cidade e uma jukebox no canto tocava clássicos do rock, preenchendo o ambiente com melodias nostálgicas.

Naquela noite quente de verão, a lanchonete estava cheia. O som das conversas animadas e risadas se sobrepunham ao tilintar de talheres e ao farfalhar dos sacos de papel. Sebastião, um homem robusto com um sorriso contagiante, movia-se entre as mesas, servindo pratos fumegantes de hambúrgueres suculentos e batatas fritas crocantes. “Aqui está seu pedido, dona Angela! Pode aproveitar!” Ele dizia com um tom alegre, enquanto a mulher sorria agradecida.

Rodrigo e Nathan estavam sentados em uma mesa no fundo, ambos conhecidos na vizinhança. Rodrigo, com sua aparência desleixada e cabelo desgrenhado, devorava um hambúrguer enquanto Nathan, mais arrumado e sempre bem vestido, tomava uma cerveja. O contraste entre eles era visível; a tensão também.

“Você não entende nada de futebol, Rodrigo. O time precisa de estratégia!” Nathan exclamou, batendo a mão na mesa com força. O som ecoou pela lanchonete, atraindo olhares curiosos.

“Estratégia? Você só fala isso porque seu time está na última colocação!” Rodrigo respondeu, sua voz alta e desafiante. A frustração em seu tom era palpável. O cheiro do ketchup se misturava ao suor que começava a escorrer pela testa de Nathan.

A música da jukebox mudou para uma balada suave, mas a atmosfera estava longe de ser tranquila. Os olhares dos outros clientes se voltaram para os dois homens. O ambiente que antes era caloroso agora pulsava com uma tensão elétrica.

“Você sempre foi um fanfarrão! Por que você não aprende a calar a boca?” Nathan gritou, levantando-se de forma abrupta da mesa. A cerveja balançou perigosa em sua mão.

“Cala a boca você! Sempre se achando melhor que todo mundo!” Rodrigo disparou em resposta, levantando-se também. A mesa tremeu sob o peso de suas palavras e o cheiro do óleo das frituras parecia intensificar-se no ar.

As vozes aumentaram e logo os dois estavam cara a cara. “Eu vou te mostrar quem é melhor aqui!” Nathan desafiou, seus olhos brilhando com raiva.

Nesse momento crítico, Rodrigo olhou em volta e percebeu que todos estavam observando. “Você não vale a pena,” ele disse com desprezo, virando-se para voltar à mesa.

Mas Nathan não aceitou aquela recusa como resposta. Em um impulso irrefreável, ele empurrou Rodrigo pelas costas. O impacto fez com que Rodrigo perdesse o equilíbrio e esbarrasse na mesa ao lado.Onde um casal com duas criancas saboreavam seus hamburgueres e Sebastiao com uma faca de cozinha afiada cortava o hamburguer de uma das crianças. 

O copo de refrigerante voou pelo ar como se estivesse em câmera lenta antes de espatifar-se no chão — o som do vidro quebrando foi ensurdecedor.

Sebastião  ao ouvir o barulho. “Ei! Calma aí! Aqui não é lugar para briga!” Ele gritou.

Rodrigo girou-se furioso  para Nathan e antes que pudesse dizer mais alguma coisa viu a faca cair da mão de Sebastiao   durante o tumulto — deslizou pelo chão até parar nos pés de Rodrigo. Ele olhou para o objeto afiado refletindo as luzes da lanchonete; um lampejo de pânico cruzou seu rosto quando ele tentou dar um passo para trás.

Enquanto Sebastião abaixava para pegar a faca. 

Mas era tarde demais; o movimento brusco fez com que ele escorregasse no refrigerante derramado. Caindo sobre o objeto afiado nas mãos, ainda suspensa de Sebastiao . A faca cravou-se em seu abdômen e ele tombou  para trás — uma cena horrenda que ninguém poderia ter previsto.

Os gritos das pessoas ecoaram pela lanchonete enquanto Sebastião  tentava socorrer  Rodrigo caído no chão, tentando estancar o sangue que jorrava como se fosse água corrente. O aroma doce do açúcar dos milkshakes agora se misturava ao ferro metálico do sangue no ar; um contraste macabro que deixava todos sem fôlego.

“Rodrigo! Não! Por favor!” Nathan gritou em desespero quando percebeu a gravidade do acidente. Sua voz tremia entre o horror e a culpa; ele nunca quis isso.

A jukebox parou abruptamente como se tivesse sentido a tensão mortal no ar; a música deu lugar ao silêncio ensurdecedor da lanchonete cheia. A única coisa que podia ser ouvida era o sussurro agonizante de Rodrigo enquanto ele tentava falar algo incompreensível — palavras perdidas entre o estremecer  da dor.

Sebastião chamou por ajuda enquanto lutava para manter Rodrigo acordado. As lágrimas escorriam pelo rosto dos presentes; ninguém sabia como agir diante daquela tragédia inesperada.

 Entre sabores intensos e aromas acolhedores havia sido escrito um capítulo sombrio; uma morte acidental marcada por desentendimentos e impulsos irrefletidos — lembrança eterna da fragilidade da vida e do peso das palavras ditas em momentos imprudentes.

Ana Pujol
Enviado por Ana Pujol em 27/12/2024
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