Ana Lago de Luz

E na beleza das flores... e nas ondas do mar!

Textos


Cenas cotidianas 43

 

 

Em uma rua movimentada de uma cidade agitada, o som suave e melancólico de um saxofone ecoava entre os prédios altos e as pessoas apressadas. Era um saxofonista solitário, cujas notas fluíam como um rio de emoções, tocando os corações daqueles que passavam por ele sem realmente ver.

Seus dedos habilidosos deslizavam pelas teclas do instrumento, criando melodias que contavam histórias de amor perdido, sonhos não realizados e esperanças desvanecidas. Cada nota era um suspiro da alma, um eco do conflito interno que o saxofonista carregava consigo há tanto tempo.

Enquanto as moedas tilintavam no case aberto à sua frente, o saxofonista se via dividido entre duas realidades distintas. De um lado, a necessidade pragmática de sobreviver nas ruas implacáveis da cidade, onde cada nota musical era uma moeda de troca por um pedaço de pão ou um teto temporário sobre a cabeça. Do outro lado, a paixão ardente pela música que o consumia por dentro, lembrando-o constantemente de seus sonhos abandonados e promessas não cumpridas.

Enquanto os transeuntes apressados passavam por ele sem realmente ouvir, o saxofonista mergulhava em seu próprio mundo de dilemas e desejos reprimidos. A música era sua fuga e sua prisão, sua salvação e sua condenação, tudo ao mesmo tempo. E enquanto as sombras da noite envolviam a cidade em um manto escuro, a melodia solitária do saxofone continuava a ecoar como um lamento silencioso na escuridão.

E assim, sob as estrelas distantes e a lua pálida no céu noturno, o saxofonista de rua se via diante do espelho cruel de suas próprias escolhas e sacrifícios. A dualidade de sua existência se refletia nas notas tristes que fluíam do instrumento, testemunhando o conflito interno que o consumia dia após dia, noite após noite.

E na solidão da madrugada urbana, o saxofonista continuava a tocar, buscando redenção em cada acorde, esperança em cada suspiro musical. Pois para ele, a música não era apenas um ofício ou uma paixão; era a própria essência de sua alma em conflito, uma expressão visceral de sua humanidade dilacerada entre a necessidade mundana e a busca eterna pela verdadeira liberdade.

Ana Pujol
Enviado por Ana Pujol em 10/12/2024
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