Ana Lago de Luz

E na beleza das flores... e nas ondas do mar!

Textos


A atmosfera de celebração logo foi envolta por uma nuvem de tensão quando o bispo, com o semblante fechado, se aproximou do grupo. Ele era uma figura imponente, e sua presença logo fez o murmúrio de alegria dar lugar a um silêncio reverente, mas tenso.

 "O que está acontecendo aqui?" ele perguntou em um tom severo, sua voz ecoando pelo sítio. "Isso é um espetáculo vergonhoso! Como vocês podem acreditar que um homem como Manoel, que não segue as nossas sagradas escrituras, possa ser um instrumento de Deus?"

As palavras do bispo cortaram o ar, e a expressão de Lúcia mudou instantaneamente. Ela sentia a alegria da cura se esvaindo diante da indignação de uma autoridade tão forte. O povo começou a murmurar entre si, confuso e preocupado.

 D Maria, sempre firme em sua fé, tomou a frente. "Bispo, o que vimos aqui é um milagre! A cura de Lúcia é uma prova da graça divina! Como podemos ignorar isso?"

O bispo balançou a cabeça com desdém. "Milagres não podem ser feitos por quem não segue as doutrinas da Igreja! Manoel é um herege! Se as notícias chegarem ao Vaticano e forem mal interpretadas, isso poderá trazer consequências terríveis."

 Manoel, percebendo a gravidade da situação, decidiu falar. "Eu não sou um mensageiro do demônio," disse ele com calma. "Apenas busco ajudar aqueles que sofrem. A verdadeira fé não se limita a rituais ou dogmas; ela reside no amor e na compaixão que temos uns pelos outros."

O bispo aumentou a intensidade de seu olhar. "Você fala de amor, mas está desafiando a autoridade da Igreja! Isso não é apenas uma questão pessoal; é uma questão de fé e doutrina!"

 Enquanto o debate se intensificava, o aroma das flores começou a ficar mais forte ao redor deles. Era como se a natureza estivesse respondendo à tensão crescente. As flores começaram a brotar ao redor dos pés de Lúcia, colorindo o chão com tons vibrantes.

"Olhem!" alguém gritou, apontando para o chão florido. "As flores estão crescendo onde ela anda!"

O bispo hesitou por um momento diante daquela visão impressionante. No fundo de seu coração, mesmo ele não podia ignorar o que estava acontecendo bem diante dele.

 Lúcia, ainda recuperando-se do choque inicial, decidiu intervir. "Bispo, eu só quero viver. O que aconteceu comigo foi algo além do entendimento humano. Não devemos nos dividir por crenças; devemos nos unir pela fé no amor."

As palavras dela ressoaram entre os presentes e até mesmo entre os mais céticos. A comunidade estava dividida entre o respeito pela autoridade do bispo e a experiência transformadora que acabaram de vivenciar.

"Não podemos deixar que nossos medos nos impeçam de ver a verdade," continuou Lúcia com determinação. "Se isso é realmente um milagre, então é algo que deve ser celebrado e não temido."

O bispo ficou em silêncio por um momento, ponderando sobre suas palavras e sobre o impacto que aquelas flores poderiam ter em sua visão rígida da fé. A luta interna era evidente em seu rosto enquanto ele tentava reconciliar suas crenças com aquilo que estava vendo.

E assim, naquele sítio onde as flores brotavam como símbolo de esperança e renovação, a batalha entre dogma e fé genuína estava apenas começando.

Ana Pujol
Enviado por Ana Pujol em 05/12/2024
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